Sentada, prestando atenção na aula de psicologia, o professor falava cautelosamente com pausas prolongadas que me deixavam aflita, parecia até que ele estava fazendo cosplay da Clarice Lispector¹, na entrevista para a TV Cultura. Reparei que o professor gostava de dar exemplos para explicar o que ele queria passar. Ele nos perguntou se sabíamos como era a idade média, os alunos pareciam robôs programados para não responder. Depois perguntou se tínhamos assistido Game Of Thrones, acho que só eu levantei a mão.
"Pois a idade média era daquele jeito." Ele disse.
Um breve resumo : O protagonista, já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances, perde o juízo, acredita que tenham sido historicamente verdadeiros e decide tornar-se um cavaleiro andante. Por isso, parte pelo mundo e vive o seu próprio romance de cavalaria. Enquanto narra os feitos do Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes satiriza os preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis.
"Sabem um cavaleiro andante? Existia naquela época, mas nessa obra é uma sátira e talz".
Eu entendi o que ele quis dizer, lembrei logo do "Cavaleiro dos Sete Reinos". Olhei para aqueles rostos e me perguntei se as pessoas estavam entendendo o que ele estava querendo dizer. O professor foi fazendo mais algumas perguntas e com algumas expressões de "pelo amor de Deus, alguém sabe de alguma coisa que estou citando aqui? Reajam!!".
Ele até citou Heráclito:"Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários".
Sabe do que eu lembrei? O mundo de Sofia, procura lá, página 47 do livro.
Sabe do que eu lembrei? O mundo de Sofia, procura lá, página 47 do livro.
Em seguida uma foto no slide apareceu:
"Quem é esse pensador?"
OBS: Eu não sou de ficar dando respostas ao professor, até porque eu sei que sempre tem alguém que fala e também porque sou tímida. Mas quando eu vi que ninguém respondeu, tive que falar : WILLIAM SHAKESPEARE PORRA!!! (mentira não falei o palavrão e nem gritei '-') Falei quase como um sussurro, mas ele me ouviu e disse muito bem, Shakespeare.
Depois tive uma aula de lógica jurídica, coitado do professor, mal sabia o que lhe aguardava. Ele começou a explicar os paradoxos de Zenão, começando pelo da flecha.
Explicando o que é esse paradoxo:
Do ponto A sai uma flecha e dirigi-se ao ponto B, porém, antes dela chegar ao seu destino final, ela irá passar por um ponto intermediário 1. Sendo assim, antes dela chegar ao ponto intermediário 1, ela passará pelo ponto intermediário 2 e assim vai.
Não entendeu nada não é? Bem, é simples, a flecha sempre terá que passar pelo ponto intermediário de alguma coisa, sendo assim ela nunca chegará ao final. Não há movimento.
A lógica é diferente de realidade. Ou seja, só porque Zenão teve essa lógica, não significa que seja verdadeira.
Dando um exemplo para melhorar: No universo de J. K. Rowling, quem usar o Avada Kedavra será preso em Azkaban, isso é lógico para o mundo dos bruxos, o mundo em que os leitores acreditam. Mas é real? Não é.
A sala quase fez uma rebelião, dizendo que isso era impossível, "como pode a flecha ser atirada e nunca chegar? "Professor isso é impossível!"
Minha mente: Só se você acreditar que é, já dizia o Chapeleiro.
O professor passou quase uma hora sem conseguir prosseguir com o conteúdo porque simplesmente os alunos não conseguiam aceitar essa teoria.
"Professor se isso cair na prova, vou discordar".
"Você pode discordar, mas se cair sobre o que é a teoria, você vai ter que explicar, sua discordância não estará em jogo"
Entendi perfeitamente o que ele quis dizer, porque em minha mente eu comparava com os escritores que inventavam suas teorias e nós leitores, compreendíamos e sabíamos que aquilo era lógico naquele mundo, no nosso não. Zenão tinha a teoria dele e o professor iria perguntar qual era a teoria e não se você concordava ou não.
Depois de muita confusão a matéria prosseguiu para o segundo paradoxo, o da corrida.²
A teoria é de que a tartaruga teve vantagem saindo na frente. Vamos supor que a tartaruga esteja no ponto B, o tempo que leva para Aquiles chegar a esse ponto, é o tempo em que a tartaruga chega no ponto C. Aquiles novamente leva um tempo para chegar ao C, mas nisso a tartaruga já está em D. Sendo assim a tartaruga ganharia e Aquiles nunca a ultrapassaria. Claro que você precisa entender que Zenão acreditava na teoria do não movimento. Uma lógica dele, que não significa que seja real. Você entendeu? Ótimo! Isso que importa.
Porém começou uma outra confusão na sala, "professor, claro que Aquiles ultrapassaria a tartaruga, isso é ilógico".
Nunca tive tanta pena assim de um educador. Lembrei até do vida de insetos, quando Flik pega uma pedra e pede para a formiguinha imaginar que é uma semente. "Então você é essa semente, e logo se transformará em uma árvore". Mas a formiga diz "Isso é uma pedra", e o Flik continua " eu sei que é uma pedra, mas tem que colaborar imaginando que é uma semente".³
"Mas é uma pedra".
E assim perdura essa infinta discussão.
Muitas vezes quem ler muito é taxado de pessoa que vivi no mundo da lua, que não sabe diferenciar a fantasia da realidade, mas isso não é verdade, pelo contrário. Tolkien afirma que quem muito ler e se permite acreditar naquela história, consegue perfeitamente diferenciar real de ficção.
Agora eu consigo entender o que Tolkien quis dizer. Parecia que só eu estava entendo aquela pobre alma que passou uma hora e meia tentando se explicar para aqueles alunos.
Enfim, não culpo o professor, nem os próprios alunos, talvez eles só não consigam se permitir acreditar, estão consumidos pelo mundo real. Ou eu estou louca, vai saber.....
Só eu notei o quanto os livros ajudaram?
-T
Notas de rodapé:
1- Na entrevista da Clarice, ela da uma resposta e fica calada por um bom tempo, é frustrante. Veja o vídeo clicando aqui >>> Clarice Lispector.
2- Entenda a teoria vendo o vídeo e clicando aqui >>> Paradoxo
3- Flik é um personagem do filme Vida de Inseto da Pixar Animation Studios. Veja o vídeo clicando aqui >>> Mas é uma pedra!




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