Relembrar
Tenho que afirmar que a infância foi o melhor momento da minha vida, sonho muito com a casa em que nasci, lembro do cheiro, da sensação que era quando chovia, lembro das minhas manias, das brincadeiras, do patins, do patinete, dos banhos de chuva, da fogueira, da amizade , das travessuras, dos muros que subíamos.
Me mudei, conheci novas pessoas, me fez não pensar muito nos velhos amigos que deixei para trás, aprendi a superar, aprendi que a vida continua e o quanto é bom ter novas experiências e novos amigos.
Me mudei pela terceira vez, achei que não iria me adaptar, mas mais uma vez conheci pessoas novas, novas brincadeiras, novos desafios, novos problemas, mais pressão, mais responsabilidades, ficou mais difícil, mas também cresci muito como pessoa, perdi contato com muitos amigos, mas o novos que fiz nessa mudança estão até hoje.
Então pela quarta vez me mudei, pensei que a partir dali não aguentaria mais, ficou tão complicado, nunca precisei tanto de apoio, e o encontrei no seio da minha família. Nessa época passei por várias aprovações, nada de desistir, nada de parar de sonhar, vamos superar quem foi embora, vamos continuar.
Pela quinta vez me mudei, e finalmente pensei "aqui é o meu lar" era tão confortável. Entrei em crise com velhos amigos e tive que me apoiar em novos e no final acabei me sentindo sozinha. Mas amava tanto aquele local, amava tanto aquele carinho dos meus pais que sempre que chorava, pensava que tudo ia passar porque eles estavam ali por mim. Até que aos poucos as coisas foram melhorando, mas um papel amassado não volta a ser o mesmo, tudo foi se encaixando, mas eu sentia aquele peso de não ser a mesma coisa e infelizmente só eu me incomodava com isso. Tentei mudar, tentei me encaixar, tentei não ligar, mas não sou assim.
Me mudei pela sexta vez e não gostei de cara, mas mantive a paciência e comecei a ver uma nova esperança. Comecei a gostar da nova moradia. Continuo conhecendo pessoas novas, mas não com a mesma frequência de antigamente. Cada mudança foi um aprendizado e não há aprendizado sem dor. Por quê tantas mudanças? Meu pais são crianças que ainda não acertaram, estão crescendo e aprendendo, estão tentando, embora as vezes me deixo abalar, no fundo confio neles, afinal eles não desistiram, então porque vou desistir? Claro que as coisas andam bem complicadas, mas é assim mesmo, temos que encontrar o equilíbrio.
Os amigos que fiz na quarta série continuam comigo até hoje, lembro de ir para casa da Hylanna e escutávamos a Avril, cantávamos, conversávamos, brincávamos, planejávamos o futuro (que afinal era bem diferente do que é agora), inventávamos sabores de chocolate, entrevistávamos uma a outra, falávamos mal das patricinhas do colégio, fazíamos tudo juntas, nunca faltava papo. Até que chega, sempre chega a maldita fase, a fase que nos machuca. Ela mudou, eu mudei e nossos gostos já não eram compatíveis, diferentes gostos musicais, diferentes pensamentos, tudo começou a ser diferente e essas diferenças atrapalharam muita coisa, mas nos fez crescer "50 anos em 5". Senti que ela cresceu e eu paralisei, depois achei que eu cresci e ela paralisou, senti que todos andavam e eu permaneci sentada na estrada, recusando seguir o que todos seguiam, sem entender tal escolhas, sem entender certas respostas, sem entender o distanciamento. Precisei de um tempo só para mim para entender que temos nosso próprio tempo de evolução, que todos nós erramos, que precisamos perdoar e nos adaptar, que temos que seguir em frente, que precisamos orientar e receber orientações, temos que viver. Me senti sozinha novamente. Até que parei de drama e permiti não incomodar-me com as diferenças, pensei " o que aconteceu com a gente? todos nós mudamos, uma amizade assim não pode acabar, afinal ser diferente também faz parte" Aceitei o novo eu de cada um e esperava aprender algo com aquilo, ainda bato de frente com eles, brigamos feio, acho que se tivéssemos nos conhecido agora, nesse momento, não seriamos amigos, porque não temos mais tanta coisa em comum, mas é justamente isso que é lindo, por não nos conhecemos agora, ou talvez isso complique tudo, mesmo que eles vacilem feio, mas continuam ali. Talvez o tempo seja outro, tudo mudou, mas temos que nos adaptar, temos que fazer valer. Temos que dizer mesmo que isso não agrade aos ouvidos, temos que nos estapear, mesmo que isso machuque, temos que chorar juntos, rir juntos. Mesmo com essa distância enorme, aprendi muito com eles, espero que tenham aprendido muito comigo. Eu os amo. Me desaponto muito com o que pensam e com o que fazem as vezes, mas também são crianças tentando se descobrir e tentando seguir em frente. Só acho que nossa convivência deveria ser mais confortável, mais tato e menos vácuo. As vezes acho que preciso de pessoas novas e com os mesmos gostos. Não sei se chegaremos aos 10, 15, 20, 50 anos de amizade, mas o presente é o que importa.
Estou tentando seguir em frente, as vezes tenho umas crises, mas passa, tudo passa, só quero ir, só quero vencer, só quero acertar. Lembranças maravilhosas essas, faz bem lembrar, significa que você viveu. Embora as coisas não sejam as mesmas. Sabe quando você está olhando para o nada e de repente começa a rir? É a melhor sensação de todas. Quero sempre vivenciar esses momentos. Espero que dessa vez consigamos evoluir.
A vida é seguir em frente, é rir não importa com quem, é chorar não importa o momento, é brincar não importa a idade, é sonhar não importa com o que, é lutar não importa pelo que, é superar seja lá o que for, a vida é um livro em branco, deixe gravado só os momentos nas arquibancadas do colégio, deixe só o primeiro beijo que foi no mesmo dia da sua melhor amiga, deixe só o dia em que seus amigos foram até onde você estava quando precisou deles, apague as mancadas e as palavras mal ditas. Afinal o que realmente importa? Mudem o visual, mudem as atitudes, mudem o vocabulário, mudem a forma de pensar, mas não mudem a sua essência que é tão bonita. Vamos a luta, afinal se você fizer uma tatuagem eu também faço, se você se mudar eu também me mudo, afinal nosso colar nunca se quebrará. Boa sorte na jornada, nunca é tarde pra recomeçar. Se precisar te dou um empurrãozinho mãe, um dia a gente consegue, ou podemos assaltar um banco. Um dia eu vou para Londres, nem que eu tenha que ir ilegalmente.
Um dia tudo dá certo. Acredite.
"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Vou-me embora pra Pasárgada
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada". (Manuel Bandeira)
Você faz a sua Pasárgada, a minha é a minha família e meus animais, qual é a sua Pasárgada?
-TTzinha-


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